Quando vamos abrir o comércio?
A vontade dos comerciantes em abrirem suas lojas é uma vontade legítima. A vontade dos ambulantes irem às ruas venderem seus produtos, idem. O medo dos trabalhadores perderem empregos com as empresas fechadas, também. Estes sentimentos não podem ser desprezados nem varridos para o campo ideológico.
Não é factível três, quatro, cinco meses de vidas paradas, isolados, nem economicamente, nem socialmente, nem fisicamente. As consequências são inúmeras e as econômicas são só parte do problema.
Dito isso, reafirmo: Nada é mais legítimo que a vida, o direito de viver. E o direito de não perder a vida, esta legitimidade se sobrepõe às demais.
A pandemia é uma força da natureza, de origem mais poderosa que a capacidade humana de se defender, ainda que consigamos uma defesa parcial. Assim como uma tsunami, um terremoto, ou acontecimentos ainda maiores como um choque com meteoritos, cujas evidências dizem sobre a extinção de grande parte da vida no planeta em outras eras, uma pandemia tem uma lógica imprevisível e só por isso se torna uma ameaça existencial, um infausto.
E se o vírus passar por uma mutação e adquirir características ainda mais agressivas? E se o simples fato de tê-lo mesmo que assintomático não nos imunizar? E se a vacina ou terapias não forem encontradas, afinal existem diversas doenças sem cura, não é mesmo? E qual será o custo humano até circular por todo planeta? Não temos respostas para isso.
Portanto, estamos enfrentando uma situação colocada em um patamar acima da lógica da vida, pelo menos das nossas vidas, e com isso não sabemos lidar adequadamente, apesar de não ser a primeira vez que ocorre na história da civilização humana.
Buscar respostas nas ideologias é como buscar respostas nas religiões: conforta, mas não resolve. Simplesmente elas não respondem racionalmente porque estes acontecimentos estão fora da dinâmica existencial e fora da lógica temporal, histórica e sociológica de nossa existência.
Acho muito ignorante a politização da doença, do vírus, de suas consequências, mas não posso dizer o mesmo sobre a politização do debate sobre as formas de enfrentar, sobre as políticas de governo para proteger a população ou não, e suas ações para resolver a questão central e suas consequências. Aí sim é legítimo o debate político, no campo social e econômico, na construção das saídas.
Por isso, é muito ruim quando os comerciantes defendem seu legítimo sentimento de abrir o comércio usando um discurso ideológico, baseado no negacionismo ou na relativização do que se vê em outros países, e dos parâmetros científicos.
Quem perde com esta linha de defesa são os próprios comerciantes que assustam a população, ao demostrar os interesses financeiros acima da vida, inclusive de seus funcionários e clientes. Também por não entenderem que a questão básica, mesmo depois de terminada a fase do distanciamento social, se chama confiança. Sem esta, sem segurança de não se contaminar, de pouco adianta a loja estar aberta, ninguém terá coragem de brigar de esconde-esconde com um vírus de comportamento desconhecido, agressivo e medicação inexistente.
Um bom termômetro para saber a hora de abrir o comércio é medir a confiança das pessoas. Neste caso podemos utilizar um método bastante eficiente, perguntando aos país: “Se as escolas abrissem hoje, você mandaria seus filhos às aulas?” Façam essa pergunta a você mesmo e veja o grau de confiança. E olhem que as crianças teoricamente, ressalto, só “teoricamente”, não são do grupo de risco. Quando a resposta for sim, tá na hora de reabrir o comércio.
E as questões econômicas? Vejam como as outras nações estão resolvendo! É o estado, é pra isso que existem os Estados: amparar, subsidiar, alimentar, isentar, oferecer, liberar, ajudar, minimizar, combater... Existem dezenas de verbos tipicamente estatais. É aí que está a política, é neste ambiente que cabe a opinião, a ideia, o protesto, a pressão...
Na pandemia, no vírus, na UTI, na terapia, nos procedimentos preventivos, não! A única autoridade ai é a Ciência. E ciência não se faz com palpites, muito menos palpites ideológicos.
O autor Gerson Marques é empreendedor do turismo rural.